Mara afirma que o alcoólatra, de alguma maneira, percebe o que está se passando, enquanto o “craqueiro” demora a se dar conta do tamanho do problema. “Se você flagrar seu filho com crack, sente-se para conversar e mostre que está aberto e pode ajudar. Mas sem passar a mão na cabeça”, diz João Blota, ex-usuário, limpo há treze anos e autor do livro Noia, lançado em 2009. Segundo Mara, a primeira atitude é reunir os familiares para traçar um plano de ação e consultar um especialista em dependência química. “Em alguns casos, a internação involuntária ajuda porque, após a desintoxicação, o dependente pelo menos toma ciência do que está se passando”, explica a psicóloga Fátima Padin, da Clínica Alamedas, nos Jardins, que trata de dependentes em esquema “day care” desde setembro de 2008.
Ela, no entanto, desaconselha chamar a polícia, mesmo que o dependente esteja roubando a própria casa, o que é extremamente comum. “Prefira sempre acionar o resgate, pois se trata de um problema de saúde. O dependente é um doente.”
Outra recomendação passada pelos profissionais de grupos de apoio mostra a ferida que pode ser aberta nas relações familiares. “Nem sempre os pais devem permitir que o dependente entre em casa”, diz Luiz Fernando Cauduro, voluntário da Amor- Exigente. “A proposta é que o jovem tenha perdas. Mas isso, claro, não é uma norma.” A dura recomendação foi seguida pela analista de sistemas M.M.R., de 55 anos. Depois de descobrir que o filho usava crack, ela fez de tudo para conseguir interná-lo.
“Após várias recaídas, quando ele aparecia em casa, eu não o deixava entrar”, conta M. “Foi difícil, mas meu coração estava estraçalhado e eu não reconhecia mais meu filho. Precisei ser serena e ao mesmo tempo severa.” Desde 2008, após quatro anos mergulhado no crack, I., 26 anos, seu filho, formado em gastronomia, está em sobriedade e voltou a trabalhar.